A palavra projeto tem sido tão usada, que vou colocar um termo equivalente. Vamos chamar o primeiro mapa da cidade de proposta inicial de urbanização. O lugar onde Lourdes e Jaime moravam, começou dentro de um bairro mínimo. Ladeado por quatro avenidas médias. O projeto – esta palavra é capciosa – não correu como planejado, a cidade quintuplicou-se. Mesmo assim, os dois colidiram, como se ainda fossem apenas quatro avenidas e poucos carros a circular. É a história que eles contam até hoje no tradicional “dia da batida”, mesma data do casamento. – Mãe, eu acho que, talvez, este ano não seja uma boa ideia. O seu ombro não está bom. – Lurdinha, eu te dei o meu nome, me respeite. Velhice não é doença não minha filha. Eu posso muito bem bater aquele carro quantos anos eu quiser. Não vê sua bisa? Tá lá com todos os dentes esperando pelo jantar. Só estou esperando seu pai arrumar os carros. – Me desculpe, é que não faz muito sentido. É muito dinheiro, e os remédios já estão ficando caro. – O dinheiro é meu e do seu pai. Ganhamos de forma honesta na oficina. Seu marido pode gerenciar, mas os donos ainda somos sós. O teatro estava quase pronto, o guarda de trânsito, inclusive. A autorização demorou alguns anos, mas a mulher que salvou aquelas crianças virou um ícone da cidade mal projetada. O departamento de trânsito aceitou o projeto do vereador, que inclusive só está vivo e pode tornar-se político porque foi uma das crianças salvas pelo casal. O que aconteceu foi que Dona Lourdes foi a primeira mulher motorista da cidade, depois de muita luta conseguiu autorização para transporte de pessoas, demônios de uniforme escolar. Um deles arremessou a lancheira no colega, o troço abriu no ar. E assim, a vítima apaixonada não conseguiu mais tirar os olhos da condutora. – Era a minha primeira volta no Landau. Na primeira curva, sua mãe apareceu. Aquele carro foi uma benção na minha vida, meu filho. Você não consegue imaginar o que é bater no carro de sua mãe. Dá uma vontade de… bom, e elas? – Estão vindo pegar a chave da Kombi. – Bico calado, ela não pode saber, ouviu, Jaiminho? – Tá bom. Você tá meio sem crédito comigo, colocar cunhado pra trabalhar junto é dose. Mas tudo pela batida. O que são algumas peças paralelas? Ela nem vai desconfiar. E assim, foi mais um ano. Na volta, os dois carros arrebentados. Os velhos na companhia do mesmo guarda de trânsito da época, grande amigo da família. Só a cidade que insistia em progredir e se multiplicar. Graças aos esforços dos mais antigos, e talvez mais intransigentes. Bater o carro é fácil, difícil mesmo era se apaixonar todo ano pela mesma infratora. Que animado foi o jantar. Numa casa mal projetada, para tanta criança que já era pai e veio abraçar.
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CORACAO ACELERADO. 23.04.2020
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