Sistemas de defesa são acionados quando há o surgimento de um perigo iminente. Pode, também, servir de precaução. Para que se estabeleça um sinal de alerta. Do tipo “não se meta comigo”. Existe, ainda, uma terceira aplicação do termo – cabível, quando falamos de Alberta – que pode ser definido como “ela tem tudo que precisa, e ainda não sabe disso”. Os alunos da faculdade faziam o caminho para o refeitório. Alberta, passava na direção oposta, camuflada na correria. A recepcionista da biblioteca aguardava sua chegada. – Amana, estou atrasada. Toma as chaves. – Sheila, se puder, pode me chamar de Alberta, por favor. – Tá bom. “Alberta”. Você tem quarenta e cinco minutos. O vidraceiro vem depois do almoço. Quatrocentos dias antes dos alunos de física quebrarem o vidro da biblioteca, Amana, conhecia – naquela mesma noite – Miss Alberta Hunter, no prédio de Belas Artes. Os veteranos gostavam de dar festas por lá pela proximidade com a rua. Muitos amigos não matriculados podiam frequentar as noites de gin e poesia. – Lindo seu colar, posso pegar? – Não. – Você não acha que talvez exista um momento em que até as boas meninas precisam mostrar os dentes e abocanhar a oportunidade? – O que está tocando? – Ah, é… como se chama mesmo, Ella Fitzgerald. Ótima cantora. – Claro que não, cara, isso é Alberta Hunter. – Hunter é “caçadora”, não é isso? – Exatamente, igual a você, Amana. Nossa caçadora. Escuta, porque não vem pintada para o trote dos calouros, nunca tivemos uma índia original, digo, alfabetizada e usando calças jeans. Tupi, Guarani ou Guaraná? – Deixa de ser idiota, cara. Como disse que se chamava mesmo? – Alberta! Eu me chamo Alberta. – Esse não é um nome indígena, mas tudo bem. “Alberta”, então… Todos ouviram o barulho e saíram para ver. Um jovem, talvez um calouro, provavelmente negro, sangrava na porta do prédio da pesquisa. – Quando você aprender o suficiente, talvez possa entrar aqui novamente e dizer o que pensa. – Sheila, já retornou? – Mas o que é isso aqui, Alberta? Jesus. – Não faça isso, Sheila. Por favor. Merda… Alberta, a caçadora, levou a mão ao pescoço. O colar de dente de onça assustava pelo tamanho. – Fechado para manutenção? – Essa faculdade é um caso sério, amanhã a gente volta. Vamos reclamar no site. O sangue tingia o rejunte no azulejo do chão. Os outros membros do “Clube do Livro” colocavam as cópias de volta às prateleiras. “O Estrangeiro”, guardava o punhal. “Americanah”, fechou-se com o dente de onça ensanguentado. O saco preto no meio da biblioteca gotejava e fedia a carne e vísceras. – Do lado de dentro, todo mundo é igual. Fede igual. – Cala a boca, eles devem ter batido muito forte na sua cabeça. – Alberta, o que vamos fazer com o corpo da bibliotecária? – O nome dela era Sheila, ela não teve culpa nenhuma. Nem nós. Nosso inimigo é outro. Alberta passou a ser chamada de “caçadora” pelos membros do clube. – Caçadora, igual à cantora de blues. Trouxeram a caixa? Saíram do prédio ao som de “The Darktown Strutter’s Ball”. E agora? Agora abram assim. Quero que vejam nossa gengiva. Está na hora de mostrar os dentes com a boca bem aberta.
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COM A BOCA BEM ABERTA. 23.02.2020
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