O bairro era agitado. Comerciantes enchiam as calçadas logo cedo com tudo que havia para vender. Carregador de celular, pilhas, pentes e artigos religiosos, dividiam o concreto. Mixando os sons dos vendedores no ritmo da descida do garoto, a quem todos chamavam de Bombom. – A senhora me desculpe, mas eu preciso atender o rapazinho aqui. – Bom dia, Bombom. – Bom dia, seu Bené. As motos entregavam tudo que era possível, subindo ou descendo o morro. Um botijão de gás caiu e rolou até a porta da farmácia onde saía o menino serelepe, rodando a sacolinha. – Bombom, cuidado, menino. Essa foi por pouco. – Desculpa, dona Rivalina. – Tá desculpado, um moleque como você vale ouro. Cuidado ao andar por aí. Subia com o passo ritmado das caixas de som nas calçadas: “Tem promoção e pra mocinha na loja do Bené”, “Vem que tem”, “Pá, peito ou acém: doze e noventa e nove o quilo”, “Ao mate a água”. Para onde olhava, era um aceno de camaradagem. – Ae, Bombom, fiz uma música pra você. Cantaram e rebolaram juntos. O locutor era um admirador. Bombom veio com a letra decorada até abrir o portão da casa mais antiga da rua. – Bombom… – Já vou dona Divina. O rapaz tirou a velha da cama. Deu-lhe de comer. Moveu qualquer botão do rádio, mais antigo que as pinturas da própria casa. Começou a gesticular. A cadeira balançava e as palminhas quase não se ouviam. Bombom cantarolava o rap que o rapaz da loja compôs. A anciã repetia “bombom”, “bombom”. – Ainda precisamos esperar mais uns minutos, tem que fazer a digestão. Bombom saiu da casa com a sacola vazia. A senhorinha deitada na cama, esperava pelo próximo dia. – Mãe, cheguei. – Renato, meu filho. Já passou na Divina, tudo bem por lá? – Tudo certo, mãe. Amanhã vou buscar o remédio novo dela, seu Barnabé me disse que vai mudar. – Que ótimo. E vai lavar essa mão antes de pegar no bolo. – Mãe, você acha que ela se lembra de alguma coisa? – Isso não importa mais, meu anjo, só temos que agradecer. Dona Divina deu a vida por essa gente. – Verdade, você já me contou essa história… – Por isso, você vai lá todos os dias, não é? – Na verdade… é, e não é… – Explica isso. Tá ali, pega a xícara branca… – É que… bom, antes, eu era chamado de tudo quanto é nome, menos de Bombom… ou Renato… – E o que tem dona Divina? – Quando eu fui lá com você pela primeira vez… Ela me olhou de um jeito. Sabe? Renato contava os potinhos de bolo e separava os sabores para cada isopor. – Não precisa fazer isso, meu anjo. Já terminei. Continue… – Bom, ela não falava, e agora toda vez que eu vou dar os remédios… Você sabe… Ela chama eles de Bombom, e o apelido pegou na farmácia e subiu o morro. Eu sou o Bombom por causa da dona Divina… Entende? Eu queria poder agradecer a ela por me dar isso. Eu até ganhei uma música, você quer ouvir? – Claro que quero, mas aqui dentro você é o meu Renato. Lá fora você pode ser quem quiser. O mundo é seu, meu docinho. A cozinha animada, os potes arrumados e a mãe feliz. Era tudo que Bombom precisava. Amanhã era outro dia, amanhã até o remédio seria outro.
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BOMBOM. 22.02.2020
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