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012. CALOR TA DE MATAR. 12.01.2020 012

Antes das oito da manhã de um domingo, as janelas já estavam escancaradas, todos já estavam na rua. A sinuca, o churrasco, a cerveja quase gelada roubando a glória da tarde. O muco já havia secado no buço dos garotos girando pneu morro abaixo.  Na outra face da pedra do Morro do Caroço, visualmente mais limpa e de cores dessaturadas, as casas há muito abriam janelas às seis da manhã. Na tevê, a cozinheira anotava: após às oito, não é mais recomendado. O calor tá de matar, o motorista retrucava a notícia.  O serviço de auto-falante do Alto do Grumo, assim era chamada o lado oeste do morro – valorizava o lugar – anunciava o toque de recolher. Há um ano, o lado leste pegava carona na sirene ao longe. O pobre sempre imitou o jeito de falar, andar e obedecer sirenes da classe média, que se dizia alta.  O diâmetro amarelo crescia. O muro, que dividia o lugar com dois nomes, caiu. Na grelha do churrasco, fuzis. Da criança brincando, soldadinhos de chumbo. A cozinha não havia mais empregada ou motorista, os lados foram definidos na esperança de que a chegada fosse uma invenção da mídia. O asfalto não queimava mais do que o ódio da desilusão, da perda, da falta de opção e da cegueira aparente. Em cada mão, uma cópia do mesmo destino. O calor matinha os vinte por cento da bateria. Se carregar mais, explode, um avisava. A calidez era real, estava na pele, na bebida quente, no cabelo desgrenhado pela testa suada. O fim, incerto. As tomadas não ligariam os furtos, as geladeiras não trariam refresco, o outro lado já não interessava. Sede sem fim.  O morro virou uma massa de nome misto, Morro do Grumo, Alto do Caroço, Caroço do Grumo… bobagem.  Todos contraíram na tez o mesmo tom.  Pele, finalmente, não definia a qualidade. Um astro-rei, cansado de tanta briga por um lugar, aniquilou qualquer disparidade. A luz chegou nos corações de todos naquele morro, e no seu entorno e sobre tudo o que conheciam.  A centelha divina dentro de cada um, até dos menos inocentes, explodiu em glória eterna. Enfim, o salvador. Que assim foi!  E, como sempre, o mais forte engolia o mais fraco. Mas que sina desgraçada. E aquela gente nem sabia que copiava.