Fui transferido para cá tem pouco tempo. Casamento deu tudo errado e eu mesmo me transferi. Não me casei com mulher, nesse caso teria sido por obrigação – o homem sempre vai. Me mudei porque ou eu saia rápido de lá, ou eu matava um dos dois. Coração partido é pior que cisco de coisa quebrada. Os cacos viram pó, se espalham por aí e você se divide em pequenas parcelas de amores sem demora. O bom é quando você, numa dessas, topa com gente que te entende; é o caso da Melissa. O coração partido dela se juntou com o meu e somos irmãos nessa arte de sofrer. Quer dizer, éramos. Ela encontrou outra alma gêmea, eu matei minhas metades. Ela me convidou, logo no início do nosso reencontro – sim, porque ela disse que somos de outras vidas -, para ir visitar o pai. Não gosto do tema “pai”, perdi o meu cedo. O que foi não importa, eu estava com preguiça de investigar, não medo, preguiça mesmo. A vida cansa muito a gente. Mas eu fui, ela consegue me pegar nos dias mais nublados. Entramos no carro e saímos em direção a uma cidade do interior. Eu nunca tive medo de cachorros, eles é que não gostam de mim. Eu sei que sou uma pessoa má porque já ouvi que cachorro sabe pra quem latir, era sempre para mim. Eu posso ser mau, mas sou um vilão de prelúdios dramáticos e razões convincentes. Qualquer um me daria um voto, se rolar um papo e álcool. A cachorra, enorme, peluda, subiu do meu lado do carona. Confirmei a teoria para Melissa que me pediu: – Fred, leva a caixa. Não é por ser mulher, é o tamanho dela que impressiona na direção: pequena e ágil, mas a vaga era apertada, por esse motivo, fui na frente. Queria acabar logo com o suspense em conhecer a pessoa que me deu uma amiga como ela. A casa era grande, o portão já estava arreganhado e alguns instrumentos de jardinagem espalhados pela grama. A torneira rodopiava molhando tudo que entrasse pelo portão de metal. Corri com os vinhos, o interior tilintava, achei que tinha quebrado. Invadi uma das três portas da casa enorme. Algo tinha passado do ponto no forno. A porta aberta da cozinha bloqueou uma outra porta interna, da despensa. Ouvi um abafado “é você minha filha?” e liberei a passagem. O homem tinha o dobro do meu tamanho. As linhas do rosto eram firmes e um quê burlesco nas expressões. Limpei as mãos na camisa e estendi. – Ah! Então, você… – me olhou enviesado – é o amigo que cuidou da minha filha? – e quase sorriu, sem entregar o jogo. Melissa se juntou ao nosso abraço. Finalmente, tinha realizado o sonho de reunir os dois homens da sua vida, até aquele momento, claro. Hoje, meu grande homem é o cara que eu conquistei como amigo. Pode ser pai dela, mas eu o encontrei, o tirei de dentro de uma despensa macambúzia, e ele me tirou da escuridão. Eu não sabia o que era ter mais de uma pessoa para pensar quando estivesse sozinho. Entre noites de geleia de cabernet e jazz, nos tornamos mais que amigos. Somos parte de um clube secreto, o nome ainda vamos inventar. Sobre a Melissa, não tenho notícias. Ela não é uma coisa minha, é do mundo. Um dia, nos reencontramos. O abraço imune às horas terá o mesmo aperto.
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CABERNET. 18.10.2020
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