Doutora Magnólia Ferreti perdeu o impulso de olhar debaixo da cama ao acordar. Fazia questão de ser chamada pelo título acadêmico, mesmo sendo ela nada menos que bacharel na prática de libertar, quando deveriam permanecer lá, por questões óbvias. Talentosa, convenceu a si mesma que tudo seria diferente daquela noite. Deixou para trás a mãe que gritava. Da irmã, restava o som da voz – bem lá no fundo, só de um lado do ouvido. Poderia ter sido atleta, comprovada habilidade em atingir grandes distâncias em curto tempo. Mas procurou o silêncio, onde quer que fosse possível. A biblioteca da cidade sem nome, sem endereço, foi o laboratório de adoção do homem que colecionava pedras. A pequena Mag teria sido levada sem responder, a boca só comia. Cresceu sem aprender substantivos, apenas verbos imperativos. Herdou tudo: a casa, as ordens e o medo do escuro. É nesse lugar sem paredes que o monstro entram sem bater.
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HABITO. 19.10.2020
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