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112. BURACO. 21.04.2020 112

O pai fotógrafo adorava as tardes. A luz mais bonita vinha do fim, ele dizia. Convidou o filho Jonas, de oito anos, para uma caminhada na floresta em frente à casa.  – Papai, uma cigarra.  – Não toque, meu filho. Ela está passando por um momento deslumbrante.  – Mas ela está agonizando, morrendo.  – O sol também. Amanhã ele nasce outra vez, no entanto, veja que luz mágica. Vá um pouco mais para o lado, me deixe captar esse momento… isso, bem aí.  Certas coisas na vida são bonitas porque acabam um dia. Naquela tarde, o menino desajeitado, serelepe, meio afeminado, cujo pai não via há alguns anos, virou poesia. Como um raio de sol, emancipou-se da energia pesada da carne. O que já era luz, resplandeceu. Toda criança merece ser tratada com respeito e tem o direito à vida, mesmo que esta tenha sido tão breve. O pai, que há pouco havia saído, para o cárcere retornou. A floresta seguiu contando a bela história da perpétua renovação. O corpo do pequeno adubou as mais coloridas flores da primavera que se avizinhava.