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352. BESTIAIS. 17.12.2020 352

Cirurgicamente, o animal passeava por entre talheres na mesa. O casal se olhava fixamente, por mais de oito minutos, sem piscar. A mulher estaria acostumada. Sempre atravessada pela mira gelada do homem que chegava tarde, não dava satisfação, tanto fazia. Mas o marido não suportaria a mirada gélida, não fosse o coma induzido pelas ondas do rádio, talvez uma bofetada fosse servida após o jantar. Seis da manhã e todas as casas, da extensa rua do bairro, estavam acesas para o jantar. O sol aqueceu mais uma vez a fatia desperdiçada sobre a louça, na companhia de moscas excitadas com a oportunidade de passear sobre bocas e restos sem distinção ou perigo. Uma ratazana morreu eletrocutada, havia dias que não recolhiam o lixo, uma das casas foi desligada da rede de energia. O gato inchado sobre a mesa. A barriga estufada de gases, o estouro. Uma das mãos acordou para tocar o nariz. O homem se lembrava da vibração sonora, agora interrompida. Não poderia saber o que se passou. Como sua mulher mantinha lágrimas em um olho opaco? Amarelado, ressecado, que antes de despertar chorou ao ver a decomposição do lar. Encontrou o marido balançando o vizinho pelos ombros. A água pingava e o homem de pé, adornando um jardim. O som ressoava em todas as janelas e portas abertas. Um urso andava pela rua de trás com a boca em vermelho. Nada era possível ser feito. O gato serviu de isca para que o enorme bicho não se aproximasse, a mesa foi arrumada mais uma vez. A luz voltou. Ela ajustou a barra da saia ao receber a gentileza do cônjuge. Este, controlava os espasmos. A casa entraria em conformidade mais uma vez.