Meu pão tava na metade ainda, não queria guerra com ninguém. Ofereci por educação, o velho pulou na outra parte e ainda pediu bebida. Relevei, nunca tinha visto ele por ali. No portão do prédio o Manuel alimentava um senhor fraquinho, tinha só barriga. Me fez lembrar de quando eu punha a bola debaixo da camisa depois do gol. Entreguei o saco de brioches, não deveria ter saído de casa. De tarde, levei o Toby no parque, o psiquiatra disse que seria ótimo ter uma companhia. Esse lance de passear era muito novo, cada dia o cachorro ia num horário diferente. Se o bicho falasse, diria que sou uma fraude, certeza. Só não largo ele porque performa muito bem nas redes sociais, as meninas piram num cão de raça. Uma senhora pediu para alisar o pelo, que arrependimento. Perguntei se ela tinha família. – Claro, cê acha que eu sou mendiga? Quem estava amarrotada e de pijamas na praça, numa lua de lascar, não era eu, nem o Bob. Então… meio que achei sim, confesso. Perguntei sobre a paralisia facial, mas ela desconversou. – Estou concorrendo. Essa vaga é minha! Eu já vi um conhecido da minha família vir parar na mesma situação, deixei ela falar. – Esse ano o desafio está sendo um pouco diferente, mas ano passado eu quase entrei. To sentindo que 2020 é o meu ano… Qual o nome dele? – Quem? – O cachorro é de quem? Meu não é, nem do seu filho, ainda nem nasceu. – Ah! Moby… *** – Papai, como se chamava o cachorro que trouxe a mamãe? – Coby… – Não, era Toby. Seu pai não gosta de falar o nome certo porque se afeiçoou ao bicho. Por isso que só me chama de Fê, Fedora, Fedorzinha, mas quem mandou mensagem primeiro fui eu. Eu que amo ele mais. Aquele Natal foi estranho, sem o cão, só ficaram umas lembranças: quando fez xixi no laptop, primeira tosa, a fantasia de Cão-Noel. Falar nisso, meu filho desceu as escadas dizendo ter visto a Mamãe Noel. Eu disse que não existem “mamães”. O moleque rebateu e ainda disse que ela sorriu pela metade. Criança tem cada uma… que saudade do Foby!
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ACREDITE. 16.12.2020
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