Não havia muros, paredes nem portões, só esperança. Tudo que o separava da cidade lavrada pelo calor era uma distância desumana. Nazaré não tinha mais qualquer opção. Se apegou ao que diziam sobre o garoto que não crescia. Agora viúva, não tinha mais para quem apelar. Recolheu os poucos talheres, uma corrente de prata e caminhou cambaleante sob a luz do sol. A falta de ar, a boca seca não tinham qualquer efeito sobre o corpo da mulher injustiçada. Mordia a casca que se formava no lábio e não parava de olhar para frente. Dois triciclos traçaram um círculo escoltando a moça. Eles atrás e ela resiliente, uma vez que se tornava verdade a lenda. Os cavaleiros-motoqueiros, as primeiras figuras míticas do sertão. Em seguida, a mulher de branco com os cães zelava a entrada entre barrancos. Os homens peludos e suas coleiras pesadas os forçavam a andar de joelhos, babando. Não era miragem, pois ainda tinha sede. Podia sentir o coração lutando. O cheiro da água era quase melhor que o som da cascata. – Quem? – Venâncio, meu marido. É tudo que consegui carregar. O menino corado, mais alaranjado que bronzeado, desceu do trono de entulhos. Com a ponta da lança puxou o colar de prata das mãos estendidas de Nazaré. – Água! – Obrigada. Muito… Obrigada… Aos goles, contou sobre o assassinato na porta da sala. – Morte injusta? – Sim, Bacuri. Com os dedos roxos, pinçou uma das colheres e analisou o reflexo. Arremessou contra a cascata de onde um homem saiu como se ainda não tivesse entrado, seco. A mulher largou o copo de barro com a água. O barulho assustou o homem que caminhava em sua direção. – Cuidado, Nazaré! Tô com fome, vim almoçar em casa. As mãos macias tocaram o rosto ruborizado. Os lábios hidratados e o vestido cheirando a lavado. A cozinha parecia intacta, os talhares na gaveta. Olhou pela janela. Ao entrarem na casa, nada encontraram além de uma corrente de prata sobre a mesa. Os capangas recolheram as armas e saíram sem dar cabo do homem endividado. Nazaré segurou firme o tronco do marido que galopava no cavalo em fuga. Repetia o que foi solicitado: “O laranjado é sangue seco. A pele se esconde entre rachaduras. O colar, feito com dentes, está sempre fresco. Os cabelos são barro úmido escorrido para trás. Elegante, como o sertão, que já foi mar, hoje é rebelião”. – Obrigada, Bacuri.
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BACURI. 24.11.2020
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