213
213. ATAVISMOS VIRADA. 31.07.2020 213

No último dia do ano de dois mil e julho, as águas abandonaram a praia. Ao pisar firme na areia de maré baixa, vi os desejos ofertados. Mariscos desenterravam a sorte de estranhos. No ano que vem, agosto, todos terão a mesma surpresa. É o que consegui ler; desejos afins. Mas por que não pagar a promessa? Tem que pular as ondas! Tétis deve estar acostumada com essa gente, não leva nada. Decidi voltar dando meia-volta. A moça sentada a poucos metros não estava ali quando apareci. Faixa de areia extensa para a respiração tranquila, parecia estar meditando. Mas descobri que estava morta. Sentei-me ao lado para fazer companhia. Sussurrou. Saí mais vivo do que cheguei, mesmo estando agora do outro lado. Finalmente conseguia ver tudo por completo. Vivo, só enxergava metades. Perdi o tapa-olho de pirata,  tudo o que eu sempre quis. Requereu muito, verdade. Mas eu achava que não valia nada, me vendi. Foi uma excelente troca. Todo mundo vende muito e entrega quase nada. Deixei uma carcaça que não suportaria tamanha clareza da escuridão. Preparem-se, o escritor morto renascerá no ano em que ironicamente chamarei de Ano do Desgosto. Álvares de Azevedo, porque choras anjo? Venha cá e me ajude a reescrever a Lira de 2020 anos.