Abandonei meu corpo na praia. Tive a intenção de caminhar até meu antigo apartamento. Antigo porque agora estou mort.. mort… Não consegui pronunciar a palavra, mas ouvi muito bem o comando da criatura à minha frente. Obedeci e me ajoelhei perante o absurdo. – Atendia tu pelo nome de Oliver Mariano? – Perfeitamente. A criatura tinha a cabeça nas alturas, misturava-se com as nuvens que a atingiam com velocidade. As patas cruzadas impediam a passagem pela avenida. Os prédios se misturavam à sua imagem tal qual uma projeção. O odor de enxofre me dava náuseas. – Agora, tu te chamas Ariel. – Tenho escolha? – Não o privarei de respostas à curiosidade, acabastes de morrer, figura moderna, hostil. Dispõe de alternativas, são elas: Dominique, Alex, Manu, Cris, Charlie, Sol… Mas escolho Ariel. – E por que não posso me chamar Oliver, foi o nome de meu avô. – Tu foste abandonado na roda dos enjeitados, desgraçado… – E fui é…? – Enganado a vida toda. Perceba como adequo meu linguajar para atingir você. Agora fala aí pra mim, está preparado para o teste? O hálito do portal tinha o perfume de crisântemos, a planta de dia curto, assim como a breve passagem que descobri necessária. Morrer aos 27 anos nos dá a prerrogativa de usar a ignorância para questionar. Segundo a voz que vinha de cima, não havia gênero masculino ou feminino na terra de Osíris. Eu estava ali para ser julgado.
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A ESFINGE. 01.08.2020
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