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188. ATAVISMOS VARANDA. 06.07.2020 188

Sentar e criar imagens com palavras pode se tornar um desafio para além do bloqueio criativo. Quem me dera! A glória de testemunhar um início valente, entre a máquina de lavar e algumas vassouras, tal qual Stephen King. O que devo compartilhar, para quem deseja se matricular no curso de humanidades, é que todos os dias são dias de “Stephen na lavanderia”. Por esse motivo, o único adereço de que disponho sobre a mesa é uma réplica de Carrie em texto original e uma boneca de mesmo nome. Falando em processo, tenho como companhia uma senhora. Não posso dizer que somos vizinhos, sequer nos vimos. Pela distância entre as janelas, nunca fomos apresentados. Mas sou amigo de sua voz. Para que tenha sentido o que vou contar, preciso informar sobre minha admiração pelas transições dos dias – ultimamente, não ando comparecendo ao amanhecer, mas o crepúsculo me é muito caro -, reservo tal momento, em que estou sensível, alinhado com a natureza, para deitar as palavras no “papel”, e, invariavelmente, o fuxico da comadre embala as sílabas. Me parece que o único momento do dia em que a pessoa do outro lado está disponível para falar é o meu tão aguardado estado de elevação. A prosódia vê-se constantemente desafiada. O próprio Mr. King aconselha a não ler demais enquanto escreve, para que o texto não sofra influência imediata, mas é impossível não absorver o conteúdo daquela sacada. Essa pessoa do sexo feminino, cuja idade não consigo identificar apenas pelo som que emite, tem um ritmo em perfeita cadência com as risadas presentes na conversa ao telefone. A fofoca é melódica. Temas, não revelados. Posto que o vento embaralha os enunciados. O que chega até mim é apenas um jazz suave somado à batida das ruas. Ainda há pessoas lá fora, tudo faz parte. Jamais pediria por silêncio! Nem o quero. Se o substrato a que me atiro em métricas não reage às minhas infâmias, essa senhora o faz, mesmo sem saber. Eu agradeço o desafio. Impossível seria não poder escrever, por motivo de barulho, intimidado pelo mestre ou falta do que fazer.