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189. ATAVISMOS VANTAGEM. 07.07.2020 189

Ardósia é uma pedra muito bonita, principalmente quando encerada. As pessoas não estavam acostumadas com um garoto sentado nos degraus. Eu imagino que, em tempo algum, ficar parado sem expressar a intenção de movimento, iminente ou planejado, seja uma coisa aceitável. Contrariando todas as expectativas, lá estava eu. Sempre trazendo uma novidade, meus cabelos de cor forte, como o cobre, balançavam com as rajadas de espera por notícias. Na última carta, contei como era forte o cheiro e como o descolorante havia ferido minha cabeça. Imaginei que fosse responder com reprimendas, quando fez o exato oposto; elogiou e pediu uma foto. Ainda não sabia o que responderia e pela primeira vez senti o tremelique nas pernas, a ansiedade em tornar-me adulto acompanhava o sobe e desce dos joelhos. Um dia, iria até lá eu mesmo, sem a supervisão de um adulto, e poderíamos desenhar até às quatro da manhã como havíamos prometido. Mas, invés do envelope, subia as escadas a notícia da mudança, de cidade, em outro estado. Como o primeiro sopro gelado da noite, passou por mim e entrou batendo a porta. Senti o aroma cítrico, com umas notas mediterrânicas. O jantar que tinha o sabor do natal, era a consolação por algo que não era culpa de ninguém. Estavam todos tentando fazer o seu melhor, e isso era uma primazia, que naquela época, por ausência de instrumentos e na falta de uma palavra mais arrebatadora, pude chamar apenas de vantagem. Ninguém percebeu, mas eu podia ver sem ver, que meus sentimentos, ao menos para duas pessoas, não eram bobagens.