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187. ATAVISMOS PSIQUE. 05.07.2020 187

Circula à boca pequena algumas tragédias anunciadas. Apesar de um dos governadores paladinos dizer que sim, e o Ja** do Brasil dizer que não, tem coisa errada pelos becos, passeios e ruelas cariocas. Ora, há de se observar a análise do discurso, tanto dos políticos, quanto de quem segura o copo em “agrupamentos” de deboche. Veja, se há respeito ou não pela figura pública que prescreve, digo, “preside” nosso Brasil, também o houve em épocas pretéritas. Para quem não anda muito bem da memória, o Rio de Janeiro foi capital do Brasil até a década de 60. Getúlio matou-se no Palácio do Catete, o primeiro populista. Existe a possibilidade de, ainda hoje, um diploma da PUC ser dono de uma barraca na feira de orgânicos nos jardins da antiga sede do Brasil e nem sequer ouvir falar que o mar, ali mesmo, fora dominado pelo progresso. Que o chafariz fora removido para o centro da construção. Que o palacete fora erguido inspirado no mito de Eros e Psiquê, esta, símbolo da transformação. Tudo planejado para cingir nas vestes do Barão de Nova Friburgo a nobreza que lhe faltava. Um dos maiores escravocratas recorreu à mitologia para promover sua mobilidade social na subjetividade coletiva da época. Isso é de uma sutileza horrorosa, chega a ser bizarro. Não somos feitos apenas do agora.  Considerem o território do Rio de Janeiro um solo de maior relevo, dado o seu histórico inédito. Se você chegou agora, o Brasil foi a primeira colônia das Américas, e do mundo, a receber sua família real para fixar residência por conseguinte, elevar-nos à condição de Império. Os portugueses foram a primeira nação global do mundo, graças à galera aqui. E qual é o tamanho de Portugal? Pouco maior que o próprio Rio de Janeiro, territorialmente.  O negro já assumiu o seu posto na história, briga por reparação, oferece gratuitamente contra-narrativas. O índio aprendeu o português para permanecer, arriscando a própria cultura de oralidades. A branquitude do Leblon, no alto de sua inocência, tem que assumir, absorver a importância do solo que pisa e respeitar esse povo para além do que um dia foi nobre. Não comemore o 4 de julho aqui, isso é alienação séria, recomendo internação urgente, já que pode pagar. Foram-se os dias de glória. A intelectualidade fugiu das calçadas de mosaico lusófono e espalhou-se pela rede e periferia. Nossa construção enquanto povo não para, resiste, apesar de caminharmos sobre uma esteira rudimentar que tritura as informações do dia anterior. Mas esta é uma Bossa Velha.  O Rio continua lindo, alguém só precisa ter a coragem de lavar esse chorume lodoso, ardido, das ruas com nome de algum notável. Esse chão tem muita luta. A bolha do branco do escárnio, que debocha, que se desacopla dos seus, estourou. Garçon, o rapaz aqui vai passar a vergonha dele no crédito, porque quem pode pagar conta de bar no débito nem na Zona Sul mora mais. Quando não se sabe em que ano está, uma gota de cerveja é ciclone bomba. A responsabilidade de um chope do Leblon é tão pesada que nem notícia falsa consegue apagar da pouca memória que ainda nos resta. As outras aglomerações façam fila, o “oba-oba”, digo, a UPA-UPA está lotada.