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196. ATAVISMOS VACUO. 14.07.2020 196

Levar-se a sério não é um sinal de inteligência. As pessoas mais brilhantes que já encontrei reconhecem a pequenez de suas existências. Uma dessas pessoas virou-se para mim outro dia e disse que “modéstia é para os medíocres”. Eu achei inteligente a frase. Parece alguém que chega, “drop the mic”, e sai de “moonwalk”. Mas refleti bastante sobre a tal afirmativa, barra frase, barra “statement”. Ai, como eu tô americana hoje. Falei “americana” porque fica bem mais engraçada a frase dita assim, na feminina, no estilo Chico Buarque. Por falar em feminino, não sei aí de vocês quem acompanha o “reality” (ops), o programa “Rupaul’s Drag Race”. Acabou a última temporada agorinha mesmo. Ouvi da concorrente Gigi Goode a frase mais ou menos assim, minhas palavras: “Eu sei que falar assim… que mereço a coroa… parece pedante, mas não. Afirmo que posso ser confiante e humilde. Vou vencer”. Sem “spoilers” (OMG), mas enfim, apesar do resultado final, a frase teve o mesmo efeito em mim que a primeira citada no início deste delicioso texto. Eu pensei “nossa, mas esse garoto de apenas 21 anos já sabe tanto sobre si mesmo. Parece que vai dar tudo certo pra ele. É um “rockstar” (hoje, tá foda, gente). Só não pode morrer aos 27. É ruim ser tão brilhante e morrer cedo porque, primeiro, morre-se, e isso não é bom, mas aquela força não vai embora. Fica o vácuo. Um susto entre a figura impactante e o recente legado que paira sobre nós como purpurina, “glitter” (K.O.) pede por algum movimento. Então, fica aqui meu conselho: mate seu ídolo. Imagine que o jato de perfume no corredor seja o fim do talentoso admirado. Atravesse-o com a crueldade que a ficção nos permite. Essa isenção poética de impostos e direitos autorais. E quando ela ou ele virar purpurina, desfile, atravessando o essencial, empodere-se sem autorização. Se foi capaz de criá-lo – e depois matá-lo -, roubar será o mínimo que fará por você mesma(o). Alimente-se dos vácuos que somos capazes de criar usando apenas a imaginação. Antes de escrever, fiz isso, mas o herói era americano… “Sorry, not sorry”, anjo, você ainda mora em meu coração.