Entre uma cartada e outra, olhei bem para ela e concentrei-me em sentir as terminações nervosas trabalharem. A maternidade é um milagre que eu lamento não participar. Biologicamente atravessado na figura do homem, me falta o colo envolvente. Em outros campos da vida vou tentando compensar. Como é difícil o exercício de imaginar uma concepção. Minha compensação é fingir por meio de palavras adotadas. Já estavam correndo por aqui na ocasião de minha chegada. Sem batismos. Arranjo-as numa ordem que tenha cadência e sentido. Vamos girando e fazendo chiste, barulho, piada. “Mãe, como é a sensação de olhar para mim e saber que saí às suas células?”. O carteado foi interrompido e o jogo se tornou um mistério insolúvel. Cotovelos sobre a mesa. Ponta das unhas tilintando no corpo da xícara. O tempo é ótimo para esquecer coisas ruins, mas as boas também vão-se embora. É preciso se alimentar; sardinha é remédio para a memória. Mas, né? Presos aqui, sem uma lata de ômega-3… ela não soube opinar. Tem um ditado ótimo para isso… como é mesmo? Ah! “Quem sai aos seus não degenera”… Ou seja, não se corrompe ou adultera-se, é fiel ao gene. Essa coisa toda de eletricidade, massa, espaço, núcleos, prótons e carbono, somos nós também. Existe um lugar onde se pode tirar os elementos e construir o que quiser: Terra. Casa, para muitos, “casa dos outros”, para poucos. Minha família diz só “caduzôtu”. Minas, nunca decepciona… Mas a Centelha Divina é que esconde o verdadeiro discurso da criação. Constela vivências presentes, íntimas. São muitos fatores a serem interceptados para o ato original. Incompetente que sou, faço tentativas no escuro. Vou emulando palavras, como um criminoso em estado de pré-delito. Não há partos normais, nem mortes garantidas. Isso separa o poder de quem não o merece. Só quem dá pode tirar. Só quem compartilha pode gerar. Tudo vem do mesmo lugar, só nomes podemos inventar. E só quem pariu, pode imaginar a dor que é rimar uma vida na outra e ir fazendo a roda da vida girar.
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ATAVISMOS DELITO. 13.07.2020
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