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191. ATAVISMOS MOVIMENTO. 09.07.2020 191

Em linhas grosserias e gerais, a própria história da literatura nos mostra que o novo sempre vem, balizado pelo contraponto do que foi, do anterior. No início era o verbo, que apenas aos deuses eram dignos tais versos clássicos. Como de fato a tristeza profunda escancara os Campos Elísios. O que seria da dor sem a alegria que ressalta o contraste do oposto. Bakhtin esticou a régua do grande tempo, assim chamo meus dias confinado. Vivo o drama de Ulisses, de Joyce. Um dia são vinte anos. Tenho meus momentos de Plauto, pura comédia. Fujo dos dificílimos hendecassílabos versos burocráticos de Catulo. Confundo-me pela poesia do Alcorão. Olha lá, minhas orientações éticas, morais, avisos finais… Socorre-me Virgílio. No meio do caminho havia um livro sagrado. Sinto que já estou em Arcádia mais uma vez, repetindo meus equívocos temporais, como as noites na companhia de Sherazade. Pedi por Aladdin, veio-me com 40 ladrões. Roubaram minha paz, intertextualidade demais. Ao gênio, pedi por imagens e recebi total fuga da verdade, agora era puro radicalismo da subjetividade. Lírios d’água, Gritos, Salvador dali, daqui. Pausa para urinar, no centro da galeria. Vergonha de me mostrar, Duchamp. O que faço? Desfigurei-me em outras metades, nada de humano. Ao observar meu retrato de Marinetti, a mulher de Picasso chorou, questionando se eu tinha alguma noção da realidade. Virei-me para essa multifacetada donzela e proferi: descobriste o subconsciente, minha senhora. Em resposta, infinitas bocas projetaram as vozes para todo canto: “tragédia, relato de um drama moral, provoca horror e piedade”. Convidei para discutirmos o assunto em um bar, livraria, biblioteca (eu já não entendia nada). “Era hora de romper uma vez mais com os ideais”, adicionei. E, cavalheiro que sou, disse-a para ir na frente. Ela afirmou convicta que não tinha lados. Constatei que, assim como o jovem Werther, sofro demais sem ter feito nada de errado.