Eu sou aquele tipo de pessoa que quando está de bobeira digita no Google “palavras mais gostosas de pronunciar”, “palavra mais respeitada da língua portuguesa”. Numa dessas caí numa lista de palavras engraçadas. Como exercício de fixação, eu pronuncio palavras novas. Quando é alguém, uma personalidade e tal, busco pelo rosto no Google, só então consigo ir adiante. Isso ajuda tanto, menina, te contar. Então, me lembrei de uma vez em que o Coletivo Entretantos convidou uma galera boa para promover ações e intervenções pela cidade de Vitória. Tinha um amigo que o trabalho performático dele era repetir a seguinte palavra “caótica” e, tomara que eu esteja com a memória afiada, me lembro de, entre uma repetição e outra, o sujeito lançar umas promoções de varejo de loja de óculos, ficava mais ou menos assim: “caóticaóticaótica” lentes Varilux na promoção, freguesa. “Caóticaóticaóticaótica…”. Olha a riqueza da nossa língua. Quanta duplicidade, ambiguidades, dualidades que conseguimos extrair para criar sentidos, brincar com significados. Recortando a palavra e alterando ordens. Ah! Olha… eu vou te falar viu, a cada dia que passa sinto mais admiração pelas infinitas possibilidades que o português oferece. Por isso que tem que ouvir mais Chico, Caetano, Gal, Elza e infinitos outros. E quando alguém me perguntar, eu falo “brasileiro”. Outro dia mesmo, quando existia vida normal, um gringo veio corrigir a pronúncia do meu inglês de forma grosseira, perguntei: “Do you speak portuguese?”. Sabe o que ele respondeu? “No, just english”. Rindo da situação, respeitosamente de maneira interna, comecei a conversar com ele com o semblante sério, mas dizia bobagens sem coerência alguma. Eram palavras soltas que só existiam no português. Saudade, rolê, jaboticaba, cadê etc… ele balançou a cabeça que sim, era isso mesmo, concordava. Se uma pessoa fala mal a nossa língua é porque ela é perita na dela, cada um na sua, na maior trocação de ideia, né não? Fala tu que eu tô cansado, mermão.
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ATAVISMOS CASA. 10.07.2020
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