Mariana se levantou para olhar pela janela. O sol estava quase entregando o crachá. Enrolou mais um pouco no sofá. Quase fez prancha nos cabelos. Tentou ler a última parte complicada do romance. E, por fim, decidiu ficar. Cleber estacionou a moto, largou o capacete na mesa e correu para o banho. O calor do dia ainda estava nas paredes da casa. O Jornal Nacional na metade e o rapaz já estava na rua outra vez. Arrumado, perfumado e com ingresso no bolso da jaqueta de couro marrom. A fila dobrava o quarteirão. O grupo de amigos, muito persuasivos, se desculpou com o motociclista, afinal, eles ocupavam a rua. Os dois se olharam. Ele riu da maneira como ela mordia a ponta da unha. Se olharam de lado. A fila andou. O show começou. Se tivesse ficado em casa tudo seria perdido. Olhos fechados, a ponta dos pés envergando o corpo para o alto. O geladinho no umbigo. A balada romântica aproximava Cleber e Mariana. Saiu um, outro foi buscar um drink e a pista abriu para o destino forçar aquela barra. Boate escura, jaqueta no bagageiro da moto e a pele que se expandia sob a luz negra promoveram o encontro que não aconteceu e nem deveria. Se tocaram na alma. Ela procurou uma jaqueta, ele encontraria, minutos depois, uma ficante dessas aí. Barraqueira, nada importante, mas ele estava lá. Isso contava muito. Ponto para a moça. Aquele momento era deles. Só que daquele jeito, Mariana diria não. Talvez um “sim” os levasse mais cedo para casa, perseguição, dois suspeitos. A lua contou a benfeitoria para o sol nos ínfimos instantes em que se encontraram na transição da noite para o inferno do verão. O astro-rei cuidou do assunto levando todos à praia num recorde histórico de calor. Não teve nem beijo, nem abraço. Mas teve coincidência, mesma barraca da Flávia. Ele começou com um educado e cortês aperto de mão.
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ATAVISMOS HOJE NAO. 29.07.2020
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