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193. ATAVISMOS FITOTERAPICO. 11.07.2020 193

Não tenho mais cafeteira! Recolhi os cacos do corpo de vidro da prensa francesa. Coloquei a mão direita sobre o triturador de grãos e senti muito. A dança matinal cessou. O ritmo era assim: abre a portinha do armário, levanta a tampa do moedor, aquece a chaleira elétrica, serve café sem coador. Com 70 mil CEPs a menos, os correios atingem eficiência apocalíptica. A promessa de entrega relâmpago a um clique. Pronto, só esperar. Resolvi manter-me fiel aos objetos, à cerimônia. Conseguiria esperar alguns dias. Manhã seguinte, chocolate quente. Eu mesmo não entendi a decisão, mas fazemos coisas sem sentido por razões que nos fogem em dias anormais. Odiei. Me senti uma criança enganada. Um adulto fujão, expulso da reunião. Um apito baixo, fino, surgiu no ouvido desse lado, depois, do outro. No fim da tarde, minha cabeça não suportava a própria circulação. A seiva que me mantém vivo matava-me ao completar a volta. Sentir o sangue pulsar é agonia quando se pode pensar em outra coisa, mas o cérebro está ocupado com pirraça. O toque do interfone me surpreendeu. Pelos decibéis, e pela rapidez com que foi acionado. Chegaram três réplicas do mesmo utensílio, ao custo de um antigo, agora quebrado. Pensei, acabo de instaurar o primeiro café cubista, preciso escrever um manifesto. A dor de cabeça era tanta que sentei-me a testar a visão com alguma leitura de inspiração inicial. Entre Alberto, Álvaro e Ricardo, escolhi o original, por mais que me doa. Abri a caixa, lavei o usurpador caneco replicado. Café pronto, ergui a xícara e brindei a ti, Fernando Pessoa. Café passou, levou o mal embora. Mesmo eu brindando com bebida quente, abaixo do nível do coração, imprimindo a intensidade equivocada na frustração. Dionísio quando me vir, dirá: “és tu, dentre todos, o mais vacilão”.