As pedras haviam construído a cidade. Do chão, o cascalho que fazia as moças semi-aristocratas tropeçarem. Na pele, o brilho mineral. Tentavam esconder as fissuras das paredes com mais pedras, trituradas. A cidade era toda pó, em diferentes manifestações, estados e espíritos. Mas a jóia do Serro era seu Pirata, o fotógrafo. Não descia morro sem a companhia de seu ajudante, a mina tira muita coisa do homem. Tirou-lhe o jeito de andar. Toma cuidado com esse negócio, vai me custar a vida se deixar cair no chão. Entendiado, o homem, que conseguia atravessar o atlântico, trouxe maquinário mágico. Prendia o povo do vilarejo dentro de ornamentos. As irmãs da Caridade Vicentinas, ao passar pela porta, atravessavam a rua. Um dia, o moço da loja de tecidos mandou entregar na casa de seu Pirata o tecido tão bonito quanto as moças que o desejavam pela vitrine. A sala de aprisionar a partitura física estava montada. Os pobres descalços foram as primeiras cobaias. Entravam e de lá nunca mais saiam. Dava um dó ver tanta gente desaparecer. Um dia, chegou à cidade a moça mais valente. Mas que besteira, pois entrarei lá e sairei pela mesma porta provando que a mim ninguém aprisiona. A moça rodopiava aos papos com o capitão dos mares de pedra. Pois então, senhorita Machado, venha com suas amigas. Montarei o cenário. Mas o mistério ainda permanecia, o que acontecia com aqueles que serviam? Entravam e de lá ninguém saía? A novidade era tamanho que o prefeito mandou encomendar uma panorâmica da cidade. Juntaram-se todos na porta da prefeitura. Menos a mulher do Pirata, prefeito fez questão da presença. No aniversário da pequena cidade, a fotografia apresentava resolução para o problema. É que antes do Pirata, a cidade não se via. E os homens que serviam, saíram da condição de invisíveis, para contraste de uma sociedade que os viam entrar, quando deles precisavam, mas não os viam sair. Daí a lenda de que eram todos iguais o povo que descia e subia ladeira. Por isso se confundiam quem deles serviço recebia. O que mudava era só a necessidade. Foi preciso um transgressor da imagem, um homem mando, para dizer a todos que aquilo tudo era sociedade.
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A SALA DOS RETRATOS. 22.01.2020
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