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021. A CIDADE INVENTADA PT 2. 21.01.2020 021

– O sinhô não merece, mas quero saber porque botô fogo nas minhas coisa. Ou fala, ou arranco sua língua e dô pra esses menino tudin comer. A estranha fascinação pegou o Capitão, estava preso em seus olhos. Mesmo coberto de sangue, o azul acinzentado, desbotado pela roça, se irrigava de cor mais uma vez. Dona Maria do Có, sentiu, mas negou de imediato largando o homem ao chão. O barulho do coco seco fez um menino qualquer daqueles tantos acudir o moço. Enquanto a mãe se distanciava para ver o estrago ao redor. O fogo destrói e leva embora memórias ruins. Com o tempo a cabeça do capitão já parecia estar boa. O capim voltava a invadir a beira da porta e o rio já havia levado a sujeira daquela maldade.  – Os menino guardaram isso aqui.  – Cavalo traidor.  Dentro do baú, abandonado pelo cavalo, estava uma caixa de madeira, pequena, mas suficiente para guardar um objeto que caberia na palma da mão.  Tome, pode usar contra mim se quiser.  Nunca usei uma, meu marido já tentou contra mim. Quem morreu foi ele, mas foi meus minino que mataro ele.  O capitão mereceria aquela morte, ele estava condenado. Em ouro preto deixara o filho e esposa a sua espera. Àquela altura, os soldados já o davam como morto. E agora desejava outra mulher.  – Eu não posso voltar para casa, e vocês não podem ficar aqui. O soldados virão novamente.   – O sinhô já tá bão da cabeça pode ir embora.  Ao anoitecer, Capitão Belchior ensinava um dos meninos a manusear o pequeno revólver. Uma menina atravessou a sala com o vermelho no peito. A correria rompeu o silêncio da serra.  Desgraçados, estão atacando essa gente à noite.  O sinhô devia tá morto, olha essa desgraça de novo na porta da minha casa.  O capitão que não era mais capitão. Já era um deles, levantou-se como pôde para defender o que havia para ser defendido. O facão trocara de mãos, a frente do exército de maltrapilhos, o homem arrependido.    – Menino, volta aqui…  Antes do facão sentir o gosto da carne fardada, um tiro certeiro de dentro do casebre atravessou capitão Belchior, os soldados interromperam o ataque para buscar a origem do barulho.  Aos pés do cavalo, um homem sujo, de cabelos desgrenhados que mantinha o mesmo bigode.  – Era nosso capitão. Menino maldito.  O fogo voltou feroz, os cavalos pisoteavam as memórias dos dias vividos em comunhão. A mulher sem seu facão abriu os braços, o grito foi cortaro pela lâmina afiada dos aliados do homem sob sua custódia.  Os meninos e meninas viraram lendas do mato. Uns dizem que tinha cabeça de fogo, outros dizem que andava para trás com medo de soldado, outros até dizem que virou jacaré pra fugir pelo Rio.  Mas, ainda hoje, sob o alicerce da república nova, ao visitar o palácio da liberdade, lá está ela: um espectro com cheiro forte de sangue pisado misturado com perfume de flor do mato.  O Avantesma da mulher injustiçada assassinada na frente de seus filhos. E sobre os descendentes do capitão, já se foram dois. E agora chegaria o próximo membro da família para ocupar o palácio. O governador, neto do homem acolhido no mato, não saberia que algo o empurraria escada abaixo, do portentoso salão de entrada do Palácio da Liberdade.  O edifício que, para se erguer, muita história precisou ser apagada, não deixou de ser, nem por um dia, a casa de Maria do Có. O fantasma teimoso de Curral Del Reu insiste que sua história e de seus filhos, para sempre, seja lembrada.