Acordei sentindo o mesmo futum de enxofre, mas haviam paredes agora. Úmidas, viscosas. As grades cheiravam a carne esquecida crua na pia. Evitei tocar qualquer superfície. – Olá, jovem. Você tem um nome? – … Eu… não sei. Dos talhos entre os azulejos escuros uma criatura com cabeça humana e corpo gelatinoso falava. Se alguém caísse do vigésimo andar teria aquela aparência. Tudo era encardido e cheirava mal. – Por acaso, passou pela Esfinge? – Não posso afirmar. Eu realmente não me lembrava. – Ariel, provavelmente… As outras castas são levadas para o forno. Teve sorte, alguém está decidindo o que fazer com você. Não poderia dizer o mesmo sobre mim… – O que houve? – Posso dizer que não aceitei um presente divino, algumas vezes. Quando você vive no limite, é aqui que você termina. Cimento da Prisão Abissal. Estou condenado. Mas você ainda tem uma saída. – Eu… gostaria apenas de esperar aqui, mas obrigado pela oferta. – Ei, eu estou falando sério aqui. Posso não ter uma boa aparência mas o tempo me deu muito o que pensar. E você tem a beleza da juventude. Não desperdice meu conselho, ou vai se arrepender. A coisa mostrou os dentes que ainda restavam de um jeito estranho. Não sabia se ria ou se tentava me assustar. Naquele momento eu daria tudo para sair. – Tudo bem, o que tenho que fazer? – Nada. – Nada? – Isso mesmo, nada. Sente-se aí e não pense, apenas sinta. Eu sei que será difícil, mas tente imaginar que não estou aqui também. Você tem alguma memória? Ainda não está condenado, pode parecer uma eternidade, mas “lá” não se passou um segundo sequer, acredite. A ideia de fechar os olhos mais uma vez me assustava. Eu não poderia me concentrar. – Os hecatonquiros estão vindo. Depressa. Sobre os móveis não restava qualquer objeto. Estante, sem livros. Não havia tapetes. Um homem e uma mulher seguravam a mão da jovem convalescente. Os cabelos sobre o travesseiro emolduravam o rosto pálido. Os dois se assustaram com o barulho. A madeira da cama não resistiu à descida violenta. Acordei abraçada à duas pessoas estranhas e aliviadas.
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A PASSAGEM. 03.08.2020
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