Alguém vinha atrás de mim, pude sentir, não sei como. – Seus sentidos… estão completos aqui na Aduana Abissal. Venha logo criatura! Claro, a esfinge lia meus pensamentos… se movia pouco. O mínimo gesto com o pescoço provocava redemoinhos que desciam pelo vão entre as patas dianteiras. A pessoa se aproximou. Tinha o aspecto envelhecido, andava de forma vagarosa e insistia em equilibrar um carrinho de rolimã com livros empilhados. Tirou a boina xadrez e avançou. – Perdoem-me o atraso, mas não era a hora, salvo meu engano, certamente. O que houve? – Ariel, cumprimente Mirandola. – Não, não é necessário. Garanto que tudo terminará em um instante. Posso falar-lhe em particular? Nada pessoal, sim, Ariel? A brisa que surgiu aumentou e carregou o velho para cima. Os livros giravam à sua volta. Continuei onde estava, tentando fazer uso da minha “superaudição”. Não pude coletar uma palavra sequer, o chão se abriu. O elevador-calabouço desceu sem me dar o tempo necessário para concatenar os pensamentos. Pude observar a camada abaixo da rua, o encanamento, logo após uma camada cinza, muitos ossos. Outra camada com algo que parecia petróleo. Senti o calor sob meus pés. O sol vermelho, não sei se nascia ou se punha naquele horizonte hermético… O solavanco da volta meu assustou mais do que as figuras. – Gostou lá de baixo, Ariel? Veja, isso não foi uma coisa boa. Você está com “um pé lá”. Se é que pode compreender o que digo. – Então… meu julgamento parece ter sido adiado pela alma caridosa e suas enciclopédias. Estou certo? – O que você sabe é o que você deve saber. E nada mais. – Eu não volto. Agora quero conferir o que tem reservado para mim. – Não é uma escolha sua, infelizmente. – Depois do que vi lá embaixo? Eu acho que é sim.
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1088. 02.08.2020
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