A última coisa de que me lembro… não, peraí… Ah! sim. Me lembrei. Não, não. Bom… vou começar pelo que eu me esqueci: De abrir a porta da Van. Porque eu só a abri agora. E não tem ninguém aqui. Tudo começou quando chegamos na noite de sexta, eu acho. Se não me falhe a memória. Ela falha sempre. Estacionamos a Van. Era noite, e umas garotas pularam da barraca de camping direto aqui para dentro. Eu estava acordando ainda. Peguei o copo delas, mas eu acho que bebi na gargalo da jarra. – Oi, você quer? – Opa. Posso? Quero sim. Ou eu neguei? Não, me lembro bem: tomei tudo e pedi outro gole. A viagem tinha sido longa até lá, digo, aqui. Eu estava cansado, mas não o suficiente para negar. Se eu soubesse desenhar… Preciso de água. Queria lembrar do rosto delas. Bom, eram duas garotas. E um cara, que acompanhava o grupo, trocou ideia com a Lisa. Ela e o namorado estavam dirigindo. Ele no carona e ela cantando Dylan e girando o volante. Lisa é excelente cantora. O suco. O suco tinha um gosto de abacaxi com limão. E as meninas falavam coisas tipo: – Eu não acho maneiro… – Mas pensa, Mel. Faz sentido você fazer caridade, sorrir pra todo mundo e quando chega em casa tá tudo um caos? Nem olhar na cara dos seus pais você olha, cara. Eles são muito top. – Posso falar uma coisinha? O que tem nesse drink? – Umas coisinhas, não vão te matar. Não interrompe. Talvez não me matassem, mas a dor de cabeça parece que vai me engolir vivo. Ressaca é uma coisa para te lembrar que tudo nessa vida tem um preço. E elas continuaram: – Ingrid, ninguém faz mais isso, cara. Na moral. Instagram é mais a minha praia. – E o que aconteceu com o babuíno carrapeta chupa chupa bambolê biru biru? Eu já não estava entendendo o que elas diziam. A Van começou a andar novamente, num arranque bruto. Os olhos delas reviravam, e outros olhos brotavam na cara linda que elas tinham. Estragaram tudo. Eu sabia que tinha algo no líquido do copo. Lá na minha quebrada, isso se chama “suquinho” e eu sei bem o que tinha dentro. Com medo de ser levado para algum lugar, chutei a porta de trás da Van. Eu ia acordar numa banheira cheia de gelo, morro de medo de agulha. Não tatuaria nada para cobrir o resultado de uma extração de órgãos. Chutei outra vez. As duas portas se abriram e fecharam-se tipo entrada de bar do velho oeste. Blam. Travei as duas. Não conseguia mais abrir. Chutei novamente, um chute pegou numa das garotas que pularam em cima de mim. – Calma, cara. Você não tá legal. – Amiga, segura ele, vai chamar alguém. O cara me nocauteou. Eu acho que estava dormindo até agora. Sonhei, claro. No meu sonho a gente estava indo passear no carnaval. Alugamos um furgão. No meu sonho, tinha um casal na frente e eu atrás. A garota cantava muito bem. Uma pena que acordei. Mas quem recusa um biricutico de duas gatas?
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A FESTA ACABOU. 27.02.2020
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