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362. 5. 27.12.2020 362

2021 será um lugar novo, com pessoas velhas. Eu serei um remanescente do que foi 2020, trago na memória, na pele – e no tecido adiposo, a carga de um ano inteiro trancado – acolhido – em casa, dentro. Um ano dentro do dentro. Um ano de remodelagem de cenário constante. A mesa de jantar aqui de casa tem um sistema de amortecedor que a encolhe para dentro da parede, quando suspensa no ar, portanto, desmontada, fica com aspecto de Louvre, algo a ser admirado pela beleza da superfície. A sala aumenta, ganha novas funções; de ginástica, a de assistir filmes, estúdio de gravação. Essa é a superfície porosa do que foi esse ano, uma aurora boreal inacreditável, sublime, presente em cada instante – a poeira do tempo que urge por lembrança. Nesta minha contagem regressiva, digo que o véu que nos cobre será o mesmo, translúcido, escapando toda sorte de luz. Um novo ano é simbólico, revigorante, pois todos acreditamos no mesmo momento da virada. E, quem sou eu para tirar a esperança em se tratando de um ano como 2020 e no que virá a seguir, mas precisamos de mais do que tivemos, precisamos saber. Anote essa palavra: autocuradoria. Em 2021 pode ser que você faça uso dela. Com o ano que passou, aprendemos que podemos cozinhar pelo YouTube, ligar por vídeo para abraçar e, no meu caso, arrumar a descarga que explodiu de madrugada. Use isso, escolha mais, escolha melhor. Diga não aos algorítimos do Spotify, Facebook, Twitter, Instagram, Tiktok (este, uma tragédia), procure com o sentimento de revolucionário e desconfie de tudo. Viver se torna um ato político, sobreviver, revolucionário. Tenho a criatividade como animal de estimação, a levarei para o ano seguinte. Não posso abandonar o bicho no apartamento só porque a vacina chegou ou chegará até nós. Você conhece a história o suficiente para saber que mundo é esse? Eu assumo que não, e nunca saberei. Não é uma luta de vitórias, de vencer debates. Sempre esconderão algo, faz parte da guerra dos lados. Mas se não sabemos que guerra está acontecendo, como tomar partido? Se algo é grátis, quem é o produto? 2021 será uma questão pessoal – a minha questão, a minha história – e o que querem terão que se ver comigo, diretamente. É o único assunto de que entendo bem: eu e minhas questões intransferíveis.