Outro dia mesmo, numa “live”, alguém me perguntou qual seria meu próximo passo. Vamos aos trâmites: ocorre que um hábito se instala, de forma laboriosa e proposital. Instalado, o cérebro já foi vencido – a máquina de repetição vai precisar de outra surra para diminuir o ritmo. Escrevo, todos os dias, há 362 dias. Como arrefecer, uma vez que a calota já se encontra destacada no mar, solitária? Encontrei uma maneira já ensaiada entre as dinâmicas de fim de ano. Começarei outro projeto de um ano de duração, agora semanal. No podcast “Salve o Escritor”, pretendo contar o que aprendi, observei e coletei, posto que não me considero um “escritor” no sentido lato, mas um escritor que precisa de identidade, de uma bandeira fincada na calota polar, mesmo esta andarilha ao sabor das correntes oceânicas – muito maior que o bloco ou o homem na ilha gelada. Portanto, sou escritor porque escrevo de forma arbitrária e consciente, buscando incansavelmente a evolução da prática e da visão. Imaginemos assim: a realidade é nossa matéria. Uma vez posta sobre a mesa, moldamos ao nosso gosto, recriando as semelhanças para ocupar o fundo com algo que todos os humanos compartilham; cadeira é cadeira, laparoscópio é laparoscópio, mas cada um vê o seu. O significado e o significante como bisturis, suturando, desafiando a dupla “escritor X leitor” por intermédio da obra, do conto, da mentira sugerida. Já se tem ali um caminho que, possivelmente, nunca saberemos qual é exatamente, mas é uma direção. Não sou de afirmações, – “só sei que nada sei” ainda me soa político demais, quem sabe não afirma que sabe, sugere, propõe inferências -, mas digo que tenho ideias concretas do que quero: continuar a sentar todos os dias uma, duas, horas e realizar a tarefa beletrista. E, se Nossa Senhora das Vacinas Perdidas e Confiscadas assim o permitir, continuar esse trabalho lá no podcast, este, um gênero textual de investigação necessária. Ou um escritor não seria o retrato de sua época? Minha primeira observação seria: comece por um blog, ajuda a limpar arestas – isto posso dizer com propriedade, mereço esse crédito. O tema? Aí, é contigo. Muito provavelmente você já sabe qual é, só tem medo de se assumir para o espelho da tela em branco.
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4. 28.12.2020
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