365
365. 2. 30.12.2020 365

Lá estavam todos aparelhados em um círculo onde ao meio se prostrava o jovem. De pé e com a vassoura ao contrário de modo que a ponta do cabo alcançasse o ombro do ajoelhado, o nomeador toca o cavaleiro eleito com a piaçava. No coletivo, um casal se conhece. Ele se declara e ela aceita. O cobrador, então, os declara casados. Todos batem palmas e o filho desce para o primeiro dia da faculdade deixando a mãe em prantos, uma desquitada e solitária mulher em movimento. No campo atrás da igreja, os meninos brincam de bola. O goleiro sofre uma ruptura do fêmur, na corrida ficam todos pelo caminho. O templo já não existe mais, os ramos de margarida brotam da madeira úmida dos bancos grossos. A chuva lava os restos mortais do empate. Um pássaro corta a chuva ainda fraca, mas de grandes gotas. A ponta do bico desce e se multiplica. Uma torrente de navalhas cingem a malha asfáltica erguendo imensos vermes pelo céu. Os clientes do restaurante saem da varanda para se abrigar. O garçom entregou os temperos, as panelas e aguardou pela comida. Uma cliente, muito bem vestida, perguntou se estava do agrado. O empregado pediu para que refizesse, carregou um pouco no sal. Ajeitou o pedaço de pano sobre o colo e esvaziou o cálice no arranjo sobre a mesa. O dia se encerrou com pequenos ciscos luminosos em leves aparições que aumentavam em tamanho e proximidade formando uma bola luminosa ao final. A grande nuvem conseguiu destaque com a noite de cor perolada. Na troca de turnos, os astros se trombam. Um traçado de grama tostada, esfumaçada, chama a atenção de um grupo de meninos que esperavam entendiados. A cada chute, lá se iam 10 anos. Não sei, só sei aquele ano foi assim: uma versão diferente para cada um contar. Uma mentira absurda contada de maneira que pareça histórica e fácil de anotar.