É uma esquina, uma quina, melhor dizendo. Fico aqui, sentado, vendo a luz piscar e umas faíscas alcançarem a ponta do tênis. É noite, não amanhece, nunca amanheceu. Não conseguiria descrever a manhã. Só envio. O interceptador, um sujeito magro, ruivo, vem colher minha autenticação e some no breu. Não como, durmo ou rezo, essas não são minhas funções. A primeira vez foi estranho, não havia pensado que seria possível trocarem o interceptador. Talvez fosse o mesmo cara, mais velho. Até que veio uma garota. Todos tinham o cabelo vermelho encandeceste, desvelando o caminho. Pelo jeito de andar, com certeza, era o garotinho. Mas isso não importa, só preciso que enviem, estamos aqui para fazer o que precisa ser feito. Liberdade para realizar o trabalho. Os muros começaram depois da primeira troca de mensageiro. Era tudo um grande nada, mas eu só soube que era nada depois que chegaram e construíram tudo. Instalaram o poste, sem se importarem com minha presença. Os blocos são maciços, se ergueram do nada. Violentamente romperam o concreto e tomaram o espaço. Aqui não há os “antes”, só sabe o que era depois. É uma esquina, já disse, não leva a lugar algum, de fato. Aqui é onde tudo termina antes de começar. Mantenho o controle, até o último do mesmo mensageiro passar.
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SINAPSE. 14.12.2020
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