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354. PRIMAVERA VERAO. 19.12.2020 354

Trancado em casa, talvez, minha teoria, a audição tenha melhorado. A visão, com certeza, comprometida, nada que ultrapasse cinco metros de distância. A convergência está preguiçosa. Sinto dores no globo ocular e o grau já foi alterado. Não fiz qualquer exame, posto que estamos na situação onde o eletivo é supérfluo, negligenciado arbitrariamente. O som da rua é a tinta com que desvelo este imenso quadro. Uma pintura feito no escuro, com os pés. No começo, o súbito: um silêncio de quem se esconde. A pausa após o baque controlando emissões, ruídos na vigília. Os mais corajosos vão colorindo ruas, uma cor forte, rebelde. Os sobretons surgem no vácuo da coragem. Tonalidade pastel de indecisão. Tudo se mistura e temos o branco, mas ouço algo mais. Contraditório, mas as cores não passam de ondas eletromagnéticas que nossos olhos são capazes de observar. Todas essas vidas juntas, misturadas, ao vivo, chegamos perto de um cinza escuro. Não dá para saber com que cor, mas quero alguma frequência boa quando terminar. Será que me importaria em chegar de pijama amarrotado, destoando bolas, listras ou um lindo tartã escocês? Não, de forma alguma! Vestido, nu ou de “tomara que caia”, estarei de pé, ouvindo mais, melhorando escolhas e reservado aos prazeres particulares. Aprendi a gostar mais de mim, mesmo que obrigado a isso. Texturas, pigmentos, comprimentos, tanto faz. Moda é a gente que dita; um corte em giz nos anais – um saco preto aqui jaz.