Futebol é um esporte barato. Você consegue improvisar uma bola com diferentes materiais; existem inúmeros modelos, para vários públicos, disponíveis no mercado. Mas… e um lápis? Quanto custa? Uma folha de papel? Mais barato que uma bola de vinil, com certeza, – as famosas “dente de leite”. Alguém entregará a você esses objetos de papelaria de maneira totalmente gratuita, caso peça, e com prazer. Posso afirmar. Blocos de notas no celular são aplicativos sem custo, sem a necessidade de conexão com “internet”, inclusive. Ser escritor é o esporte mais barato do Brasil! E pode ser tão prazeroso quanto uma pelada de rua. Você, que joga bola, se for bom no que faz, os outros dirão ao te apontar na rua “lá vai o jogador. Esse vai ser profissional”. Mas ninguém te aponta na rua e diz, “lá vai o escritor, esse vai ser um destaque na prosa”. Eu pergunto: por qual motivo isso acontece? Não tenho essa reposta, mas posso dizer que correr, driblar e planejar um gol são estratégias que podemos tomar emprestadas com as palavras. Faça um gol, dois, três. Quero falar de literatura para as pessoas e revelar prazeres escondidos nelas mesmas. Na oralidade familiar, nas histórias que só aquele núcleo vai entender e, se contada, vamos aprender a rir juntos. Resgatar do silêncio os substantivos, os verbos, os humores. Quem não tem um tio sisudo que quando abre a boca muda de figura? Se torna um bonachão e ilumina a sala (taí um excelente personagem). Quais são os sons particulares da sua galera? Tudo é texto. Qualquer pessoa pode escrever porque é barato! Livre! É possível ensaiar com as ferramentas que tiver. Você pode ser o que, e quem quiser. Pode se soltar, inventar e criar lugares inéditos. Descrever as coisas como você as vê. Que cores você consegue identificar no que diz? Qual o tamanho das suas palavras? É legal pensar que podemos viver a literatura diariamente como quem troca receitas de bolo. Vamos falar baixinho de livros, escondido, repassando fofoca, ou bem alto! Como quem canta rodopiando pela casa. Só, por favor, não torne esse objeto uma coisa sagrada, especial, “aí meu Deus o que é isso? Ah! Um livro, vejam só”. Não! Livros são gente como a gente, são um monte de letras impressas no papel. Eles fedem, pesam, acumulam poeira e nos alegram. Quase podemos dizer que são pessoas. Já pensou que legal? Um “Pessoa” na sua casa? Um “Machado de Assis” para o jantar? Uma “Florbela Espanca” para as noites de aflição… É gratuito, é sem “fim específico”, é seu, se você quiser. Qual é a sua história? O que só você seria capaz de nos contar? O que você viu? As coisas têm nomes. Que palavras você conhece? Será que eu também as conheço? Me conta sua gíria favorita. O mestre Marcelino Freire me disse numa “live” outro dia: “vista suas palavras com roupas que elas já tenham no guarda-roupa, que elas consigam sair confortáveis para um passeio“. Que tal começar agora, com o que você já tem? Se é conto, poema, crônica, receita ou confissão, deixe que os outros digam, ou chame do que quiser. Mas não tem outro jeito, a sua partitura literária só vai existir se você deitar o texto no papel ou na tela. Você é o único que pode nos mostrar o que se passa aí dentro. Esse é o poder da criação de um escritor: ser ele mesmo em versões múltiplas, impressas, digitais. Sem pagar pedágio para gramática e sendo honesto consigo mesmo. Vai de verdade, sempre tem lugar para algo original. Comece ligando a anteninha e apurando o instinto de detetive observador. Boa sorte e quero ler tudo!
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PAUTA ESPORTIVA. 10.10.2020
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