O ano era 2004, e, pelo que posso me lembrar, o trajeto deve ter demorado umas 20 horas. Ônibus lotado, mas galera de faculdade nem vê a hora passar. Fomos conversando e ainda achamos pouca estrada, iríamos até o Sul. Descemos em São Paulo, primeira vez de muita gente ali na excursão. O clima de descoberta deu um gás novo após o banho. Vitória estava a quilômetros de distância e a geografia explodiu na minha cabeça. Perdi a noção do tempo, fui o último a sair da Pinacoteca naquela tarde. O tema da nossa excursão seria a Bienal, e foi, porém, visitamos vários lugares antes. Isso tudo logo no primeiro dia. Jovem tem uma energia revigorante, limitada, mas que dá para sentir hoje mesmo a tensão e euforia. Minha casa, o bairro, a cidade inteira perdia relevo na minha mente. “Cidade grande” era aquilo ali; todos os prédios inéditos, os lugares enormes que vi pela janela, tudo foi demais, muito, mais e mais. Imaginei como seriam outras partes do mundo, conhecia tão pouco do meu. Na manhã seguinte, Ibirapuera. A exposição exibia um fusca dependurado por cabos, ali mesmo já soltei uma exclamação. Eu fico meio independente quando me sinto livre. Conhecimento leva a gente pelas asas, não soube do grupo até o momento do fechamento daquele dia de exibição. Não me lembro de nenhum detalhe fútil. Todo movimento, coisa ou fato ordinário, comum, minha mente apagou. Guardei os detalhes ricos, cores, formas e uma nova rede de conexões tomou conta das minhas atitudes. Hoje, quando me perguntam de onde tiro tanta criatividade, como evitar o bloqueio criativo, eu dou risada. Não tenho resposta para ninguém. Eu vi o que vi e só. Quando se vê, não tem como “desver”. Quando se liberta no tempo e no espaço, só a gravidade do que é relevante assenta, te puxa com força. Desde muito cedo aprendi a olhar de quina, meio por cima do ombro, desconfiando e aprendendo. É assim que dá para fazer no meu caso: caminhar sobre ombros de gigantes. Conheci uma gigante naquela viagem libertadora. Eu sentado na grama do parque de exposições, distraído, meu corpo foi exigido na presença dela: Milhazes. Aquela foi a viagem da Beatriz.
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MILHAZES. 12.12.2020
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