243
243. MESTRE. 30.08.2020 243

Fechou a caixa com fita grossa e deixou por cima da pilha de papéis. Foi fazer o café. Espera o moedor com um pé em cima do outro, até o dedão ficar branco. O professor fazia essa pose de flamingo, mas só quando estava pensando. Olhou de lado para a caixa, mordeu a ponta do dedo. Terminou o café e a ligação. Uma hora depois, o carteiro digitaria o número do apartamento. O catedrático desceria e entregaria o pacote, mas as compras chegaram primeiro. Pediu ao rapaz que subiu, que descesse, com um pacote e deixasse na caixa de correios grande. O rapaz leu o mesmo endereço das compras, mas concordou. Dispensou o carteiro por mensagem. A rede de contatos baseada em favores acadêmicos vez em quando era acionada. Já estava se acostumando com o poder. O bairro todo tinha o rabo preso com o homem que só comprava café: manteiga, não, arroz, nada, só café; arábica, 100%. Ouviu a porta do vizinho abrir. O barulho fez a superfície da bebida tremer. Esperou 20 segundos, e lá estava no mais alto volume. O concreto é um agente agravante, filtra os agudos e o que chega até a escrivaninha do professor são os graves, pondo as folhas para dançar. Levantou o pulso e afastou-se para os fundos do apartamento. A fumaça e os bombeiros chegaram exatos quinze minutos depois. Como havia calculado. Agora, era hora de sentar e trabalhar no romance onde um vizinho entra na vida do outro por motivos banais.