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300. DIVA. 26.10.2020 300

Meia meia, isso. Não gosto de falar sessenta, sabe? A palavra demora na boca. A idade é minha, não concorda? E quem olha já consegue distinguir. Olha, tudo caído já, né? Quem vai olhar? Pois, sim… Nada, a gente é amiga… só vizinhas. Mas foi ela quem me atacou primeiro. Mas eu só dei um boa-tarde de preocupação. Queria demonstrar solidariedade. Parecia que estava precisando de ajuda. Deus me livre mexericar a vida alheia. Você imagina uma pessoa acordar depois da Malhação? Vai dormir que horas uma senhora dessa? Olha, eu ouvi dizer que entre onze da noite e três da manhã tem que estar dormindo já, senão envelhece muito mais rápido. Deus me livre, eu estou devidamente medicada. Sono é sagrado! O senhor dorme que horas, trabalhando num lugar como esse? Fica muito impressionado com as coisas que vê? … É tudo verdade mesmo o que o Datena mostra? Aquilo lá tem cara de armação, sabia? Os meninos têm a mesma cara. Tudo ator contratado, não pode ter tanto crime assim por dia. Não vai responder nada, não é? Eu é que tenho que dar o meu depoimento. Ô, seu delegado, vai desculpando aí qualquer coisa porque eu não estou acostumada a sair de casa só de anáguas. Pela sua carinha, dava para ser meu filho, nunca deve ter ouvido essa palavra na vida. E calçola, sabe o que é? Tem uma senhorinha que pendura as dela bem em cima, na janela da minha cozinha… Meu Deus, a velha aqui sou eu, mas é que pinga no parapeito… ai, que horror! Há muito que a velha sou eu, o mundo está rodeado de jovens, e ainda dizem que somos maioria, que o mundo está ficando velho. Cadê? Onde que tá esse monte de malacabado que eu não vejo na televisão, que, aliás, é um desaforo aqui lá também. O senhor devia fazer uma diligência até o mercado comigo. Um dia, meritíssimo… é meritíssimo, não é? Pois, bem… um dia, aprendo a mexer nesse troço e chamo a imprensa. Tem muito filho prendendo essa gente velha em casa para tomar tudo que sobrou de uma vida de luta. Não foi fácil crescer na ditadura, não, hein? Vocês vivem uma vida de rei. Só na maciota, no bem bom. Olha para cara dessa aí, é óbvio que está precisando de ajuda. Ainda bem que eu sou muito calma, tomo meu remédio todo dia, e eu tomo para me precaver, perceba. Sou saudável, me cuido sozinha, quantos anos que eu não boto os pés num médico. Que horas são, querido? Vai começar o jornal… aquela tevê ali, ela liga? Posso esperar lá fora se o senhor quiser. Não precisa encostar, eu sei os meus direitos. Coloca uma moeda aqui meu filho, to precisando de um café. Deve ser minha nora, posso atender lá fora, excelência?