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325. SEXTA PRETA. 20.11.2020 325

Vou sentir falta do barulhinho da cadeira contra a ardósia. De tanto balançar gastou o plástico que envolvia o alumínio. Minha vó era gordona, mas foi rápido, morreu como tentou viver: num quarto da casa da patroa. Só acharam na segunda. Se mudaram por conta do cheiro. – Por favor, sai de cima do meu marido! SOCORRO!! O aroma do café da minha velha. Regrava o pó, escondia o pacote preso com pregador de madeira. A gente matava a fome com bebida escura. A noite me dava o que comer. O dia nunca me trouxe nada. – Não consigo respirar! ME AJUDA. Um bico de porteiro, outro de segurança de boate. Enquanto os branco dormia, eu segurava os cabelos da filha deles pra ela não se afogar no próprio vômito. Perdi a moto, fui banido do aplicativo e a culpa era do cara que me atropelou. Fugiu e levou junto o pouquinho de chance que sobrou. – Vai ficar aí até a polícia chegar. Tá ouvindo? Engoli muito sapo nessa vida. É muita desgraça de um lado só. Bando de desequilibrado. Engoli o choro, a raiva, o ar e a minha vida. Amor, cuida das criança que hoje eu vou mergulhar nessa escuridão que tão me dando, tô cansadão, na moral. – Morto… – Vê se tem alguém gravando, qualquer coisinha é processo. Minha vózinha tinha o perfume bom. Era uma rosa, só sei esse nome de flor. – Descansa, João Alberto Silveira Freitas. Teu nome ficou. – É verdade mesmo? A gente se reencontrou?