Se você estivesse aqui comigo agora, se incomodaria com o fato de existir um conjunto de apartamentos, cuja varanda do terceiro andar se projeta diretamente para o cômodo onde me sento todos os dias para escrever. Frente a frente. Que será que se vê tendo lá como ponto de vista? Primeira observação para que me dê conta da realidade: estaria eu fingindo algum comportamento? Mesmo de forma involuntária – ou que eu não perceba de fato -… onde eu estava? Isso! Varanda, metade de mim exposto… Estaria eu atuando toda vez que alguém aparecesse em uma das sacadas? E ainda mais, sem nenhum protocolo convencionado, estaria a pessoa atuando também, ao perceber minha concentração? Estaria ela, a outra, evitando movimentos bruscos para não ser captada pela visão periférica dos vizinhos? Perceba o valor da, solitária (e misteriosa), espontaneidade. Alguém pode estar bisbilhotando minha rotina por algum orifício. Eu gostaria que sim, mas com algum fim científico por trás. Me vejo colocando uma camisa mais bonita, posso fazer isso. Evito chegar maltrapilho para a apresentação do dia. Fecho a cortina antes de passar pelado a caminho do armário. Há um estranho na janela, e nós temos uma relação tácita, porém, íntima, com a realidade que nos cabe por ora. Imagino como é a vida do meu vizinho, o que ela ou ele fazia momentos antes de aparecer ali; está esperando o café? O programa favorito começar, uma ligação importante? De qual lado da cama será que ele/ela dormiu? Canhoto? Manso? Não são interrogações, são inferências, conjecturas, pirações de quem flutuou, atravessou os varais e vestiu a pele roubada. Uma piscada basta, se revela por completo. A partitura física chama a psicológica e, assim, nascem terceiros que perguntam por voz, “seria possível, senhor?”. São subjetivos, dependem de mim e da outra deitada na rede olhando pelo vidro da varanda o reflexo da tevê – com a mão esquerda para fora da rede -, empurrando o corpo com toquinhos na grade, mas não o suficiente para se machucar, mantendo o fluxo contínuo, sustentando o balanço – que tem apenas a gravidade e o atrito do ar como desafios a vencer. Eu? Sinto o frio na barriga com o vaivém da montanha-russa instalada entre nós.
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PRIMEIRO ENSAIO. 13.10.2020
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