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041. INCIDENTE DIPLOMATICO 4. 10.02.2020 041

Nota: este conto participou de um concurso literário. Por esse motivo, tomou alguns dias no calendário de produção; de 7 a 11 de fevereiro de

  1. Por conseguinte, os dias 7, 8, 9, 10 e 11 no calendário do Blog serão repetidos (ao clicar, aparecerá o conto “Incidente Diplomático” em todos os dias supracitados). Eu ainda me encontrava com o Jorge. “Carlos, você aqui?”. Sempre por acaso. Mas, como toda sina, a nossa cruz retornaria com um pedido saudoso:  – Conseguimos, enfim. Nos reencontramos como combinado.  – Apesar de sua chegada repentina, Fernando, o outro, o Sabino, sentiria desonra por usarmos o tal encontro marcado “antes” da hora.  O relegado jogou o braço sobre meus ombros. Apoiou o corpo contra o meu. – Carlos, não superamos aquela pendenga, mas eu não conseguiria esperar quinze anos. Eu amo vocês dois, pô. Jorge, sabendo da empreitada, nem sequer investiu em um diálogo apaziguador. Ele era nossa Suíça. Os dois me chamaram de França uma vez, quando eu discursava sobre as questões da Europa Central, primavera dos Povos… suponho que se confundiram com a fama da Revolução Francesa. Retruquei, apelidando o Fernando de Rússia: distante e espaçoso.  – E então? Que caras são essas, meus célebres? Vamos comemorar. Cadê o espírito alegre desse meu Brasil, berço do carnaval. Ê, laiá. – Fernando, carnaval não foi invenção do Brasil. E esperar por você aproxima-se do termo “consciência do atraso nacional”. – Onde você aprendeu essas palavras, França? Esse cara tá em que fase do Romantismo, hein, Jorge? Isso ainda existe?  –  Rússia, o Carlos se formou em História. Lembra? Curso que você abandonou quando foi morar fora. Jorge falava calmo. Olhava para baixo enquanto caminhava, assim mantinha o ar de imparcialidade.  – Eu não vou. Afirmei convicto.   No terceiro latão, Suíça já havia neutralizado Rússia e França. Sambavam, acertando o descompasso de nove anos afastados. Fernando, mais uma vez, nos arrastou para o meio dos foliões. Passei mal com o gosto azedo da cerveja. A música estava animada. Muitos empurrões, quase perdi o local onde parecia estar o único banheiro público. Não deu tempo: vomitei nos pés do Jorge, que beijava uma sereia descabelada. – Calma, levo ele ali naquele banheiro esquisito e volto já, Jorjão. Vem, Carlos.  Minha cabeça girava, eu tinha bebido de tudo para não aturar as marchinhas.  – Tu não curte mais bloquinho de rua, né? Vem, entra.  O mictório não tinha pia, normal, mas a falta do sanitário era estranho. Eu e Fernando procurávamos por algum interruptor. Ao acendermos a luz, o banheiro era o dobro, o triplo do tamanho que aparentava pelo lado de fora.  – Rapá, tem um monte de botão aqui… É isso mesmo? Antes que eu pudesse solicitar a gentileza de não apertar nenhum botão, Fernando segurava-se no que podia. Minha cabeça, já estava girando… Rolei de um lado para outro, até prender-me à uma mesa ao centro.  – “Voze aberdou algum vodão, Vermando?”. Girando e bêbado, traduzindo, disse algo como: “Que merda você fez dessa vez, o, Rússia?”. Permanecemos um bom tempo rodopiando naquela máquina. A compleição física de Fernando arremessou-o para fora ao tentar desemperrar a porta. Estávamos no meio de um lago. Eu já me sentia bem, vomitar nos pés de alguém deixa a gente melhor do porre. Fiz questão de comandar as decisões depois de ver a parede destruída. Do lado de fora da cabine azul, só havia um letreiro branco sobre um fundo preto. O balanço quase trouxe a náusea de volta. Os gansos tentavam bicar tudo que viam. Ganso implica mais que cachorro de madame. Tentamos nadar para fora dali. Foi tocante ver a cara de Fernando ao descobrir que o lago dava pé. Estávamos em algum jardim interno de algum palácio. – Carlos, você tá vendo o mesmo que eu? Repetiu, ao menos, quatro vezes. Respondi que sim, mesmo duvidando copiosamente. A figura de um homem calvo, de vestes duras, se aproximou.  – Boas tardes, senhores. Coçou o bigode.  – “Senhores”? Esse cara… Crê em Deus pai! Carlos… ele… é um fantasma. Olha, dá pra ver através dele.  Meus dedos se encolheram. Os pés queriam dar meia-volta. Mantive a coragem, apenas para zombar de Fernando depois que aquilo acabasse. A cena dele chafurdando-se na lama não seria suficiente.   – O que o senhor… quer… Juca? É você, não é? – Jovem, mais respeito. Peço-lhe essa gentileza.  – Me perdoe, mas por acaso… Não me diga que estamos…  – Sim. Estamos no próspero ano de 1912. Precisamente, algumas horas após minha morte.  Percebendo que eu havia permanecido, Fernando retornou corajoso.  – Carlos, 1912 num foi quando o Titanic…? – Chiu! Fernando, cala a boca. – O Titanic jamais afundaria, senhores. Afirmo com convicção, tenho laços corteses com a embaixada americana, sou bem informado.  – Barão, o senhor está mencionando a Aliança Cordial… ? – França! Vai puxar papo com o defunto agora, cara? Não acreditando em uma só visão que estávamos tendo, continuei. Nem cético, nem crente. Apenas entrei no jogo do Barão do Rio Branco. Virei-me para o fantasma e indaguei com a voz firme, para esconder minha admiração e medo.   – O que o senhor “deseja” então? O Rússia deixou escapar uma risada. Minha voz talvez tenha afinado.  – Pois, solicito uma chamada. Preciso ter com o Marechal? Nos olhamos sem entender. – Ali. Apontou para a cabine escrito “Police Public Call Box”. Vocês não são os proprietários deste aparato telefônico? Os gansos investiram contra nossa máquina do tempo. Tombaram-na no lago do Itamarati. Fernando bambeou, quase não resistiu à perda do único meio de voltarmos para casa. – Rússia, ainda estamos no Rio de Janeiro, mas não no “nosso” Rio de Janeiro. Compreendeu? Eu também sentia medo, mas não demonstrava. Desmaiar foi demais. – É. Parece que este ano não vai haver carnaval para vocês. Senti o tom sarcástico do fantasma do Barão, parecia cobiçar nossa vitalidade. Levantou as sobrancelhas com desdenho. Afirmou que a cidade entraria em luto: – Sou deveras uma figura importante. Com certeza, hão de fechar o comércio e informar o cancelamento desse bafafá.  – Excelentíssimo, com todo respeito… esse ano não será conhecido como o ano em que não houve carnaval…  – Pois, não? Cruzou os braços e me encarou.   – Não. O povo vai comemorar. Duas vezes, inclusive… Dois carnavais. Em duas datas… distintas, compreende? (Logo eu, que odiava Spoilers.) O Barão coçou o bigode. Olhou para Fernando ali, caído. Olhou para o lago. Eu diria que contava os gansos. Deu meia volta.  – Populacho mal-agradecido. Se fosse de meu conhecimento tamanha algazarra por motivo de minha morte… “esforçar-me-ia” para manter o sangue em minhas veias. Por sua lealdade, digo-lhe esse segredo, ouça com atenção. Mas, primeiro, diga-me: és tu brasileiro, aguerrido e fiel à tua pátria? – Afirmativo, “mesóclise” de pai e mãe, digo, legítimo. De pai e de mãe.  Minutos depois, um feixe de luz acendeu sobre sua cabeça. Levou embora o espectro do Barão, antes mesmo de ouvir o final de sua própria desgraça e glória. Deixou recado para Hermes da Fonseca, caso ligasse: depositar a demissão onde não lhe tocasse o sol. Os urros do homem furioso pela falta de tempo, assustaram os gansos, fugiram todos. Fernando, teria feito o mesmo, se não estivesse apagado.  Dois meses depois, após alguém, misteriosamente, ter levado nossa cabine daquele lago, subíamos a bordo do portentoso.  – Tem certeza, Carlos?  Pouco antes de partir, o avantesma de Juca Paranhos contou-me alguns segredos do Itamarati. Seu criado pessoal, Salvador, resolveria os trâmites. Nos garantiu dois assentos diplomáticos. Fernando embarcou após eu ter dito que fora em 1922. Não imaginou que teríamos o mesmo fim. Tampouco me deixou escolha. Foi comer a minha noiva há nove anos, na nossa cama. Ninguém poderia me julgar. Mas, para mim, aquele era o único fim glorioso. À custa da boa política externa – da relação cordial com os Estados Unidos – e do tradicional interesse britânico no Brasil, lá estava eu: de braços abertos, pronto para entrar para História.    Pobre Jorge, vai levar um baita susto daqui a cento e oito anos. Assim que se desvencilhar da sereia, vai perceber que um iceberg acabou com seu carnaval. A mesma sereia que entretinha Jorge, entregou-lhe uma carta. No envelope dizia: “Aos cuidados do senhor Jorge Tavares. Cordialmente, Salvador”.