César alcançou o telefone – o rosto se iluminou do azul – apertou os olhos. Três dedos alisavam a barba de cima para baixo. O volume do filme diminuía lentamente. A sala estava muda. A foto da mulher de outro dia. A moça na plateia. Preciso sair, não consigo pensar aqui dentro. À noite, as ruas da cidade deixavam escapar sons imprevisíveis, livres, instigantes, sob abrigo de algum encontro casual. Era preciso andar por aí, descobrir. Farejar o essencial. Por que não falei com ela depois? O silêncio de algumas ruas precedia o frenesi da esquina seguinte. Palmas surgiam de algum lugar com comida boa. Apartamentos discretos não conseguiam se esconder dos ouvidos do caçador. Esse cara tem uma ótima seleção de Duke Ellington. Amigos celebravam a noite. – Opa! Você tem “Haupe” nessa lista? A vizinha de baixo fez um gesto para o rapaz de cima, e outro para o homem parado na rua. – Escolhe você, sobe aí. O porteiro o aguardava. – 101, amigo. O elevador é aquele ali. César sentiu o cheiro dos cigarros feitos à mão. O gelo a tintinar em copos de cristal. O ar pesado da rua se refinava dentro do pequeno apartamento na avenida principal. O doce na ranhura emitida pelos trompetes era o mesmo ao pronunciar o nome dela. – Belinda. Imagina, o prazer é meu. – Como você pode estar aqui? O ruído no sopro de vento entre as palmeiras-imperiais empurraram César até aquele apartamento. Ou seria o perfume da geleia de pimenta? Ela estaria lá, com amigos: noite de cardápio especial da chefe, admiradora de música de concerto. Ao entrar na cozinha, o anfitrião desistiu da pergunta, pegou uma cerveja e saiu. Era óbvio que os dois se conheciam. A melodia doce, por vezes, picante, duraria o tempo da música dedicada ao amor de sua vida. Ela era só geleia. Ele foi puro ‘jazz’.
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GELEIA E JAZZ. 12.02.2020
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