Torneira aberta. Dedos na água para aliviar. Um pão na mesa esperando a outra metade, caída no chão. O marido levantou para atender o grito na cozinha. O casal abraçado. A mulher, acolhida pelo corpo másculo, foi a primeira a ouvir o bom-dia agudo vindo da mesa. Longas penas tentavam alcançar o braço do bule. Pés magricelos balançavam na cadeira. O enorme bico estraçalhava o biscoito de polvilho, o bolo de cenoura. Migalhas esparramadas pelo chão. A cabeça virada de lado mirando o caneco de leite. Sem sucesso. O troço virou, lambuzou a toalha do casamento. Saiu voando para o quintal. Após passar pelo cenário destruído – algo que, instantes antes, seria uma competente simulação de desjejum – o casal viu, no alto da árvore, o fruto exposto sem a casca. – Adolescência… já já passa. É só fingir que não está acontecendo nada.
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FMFB14 O PASSARO. 14.06.2020
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