Só queria saber quem dona Ruth pensa que é pra falar assim comigo. Eu limpo o chão, os prato, cachorro. Até a bunda do velho eu que lavo. Ela fica lá naquele sofá pedindo o dia todo. Um dia ela vai ver só, acabo aceitando o trabalho do 803, seu Vinícius parece muito mais boa gente. Eu sei que fui ensinada a obedecer, minha mãe viveu, e morreu, naquela sala, com os joelho preto de tanto esfregar. Me deixou de herança um carnê e esse emprego que nem eu sei se é faxineira ou cuidadora. Se não fosse meus irmão, eu dava uma bica naquele troço de vidro que ela carrega toda manhã pra tomar sol na janela. Eu me lembro dela antes. Quando eu era mais mocinha (eu não sabia, mas já estava sendo treinada), aparecia lá pra ficar o dia todo com o rodo na mão. Dona Ruth só percebeu que eu existia quando meus peito começaram a chegar antes de mim naquela casa. Minha bunda era a última a sair. Um dia, mainha já tinha passado dessa pra uma bem melhor, com certeza, eu fiquei sozinha no apartamento. Abri as janelas porque amo o vento da praia e nunca fui. Seu Berilo chegou e me pegou no flagra. Eu estava distraída de olhos fechados sentindo o vento entrar pelo meu vestido. O safado veio por trás e agarrou minha cintura. Será que ele pensou que eu tava me matando? Que eu ia me jogar da janela? Sei lá… gente rica acha que só porque nós não tem nada pode perder tudo assim tão fácil. Disse que não era pra falar nada, que eu tava provocando demais. Quando a madame chegou, a ambulância tinha ocupado a vaga do 307, dona Miriam tava na portaria escrevendo alguma coisa pro síndico. Eu mesma não entendi o que houve, nunca vi alguém entortar a cara pra mim. Achei que ele tava de brincadeira, o velho sempre foi engraçado. Gritei para o Manuel chamar alguém. Ele sempre pedia ambulância para dona Glória do 701, diabética e gulosa que só, rapidinho agilizou os homi pra subir e tirar o velho do tapete. O cheiro de azedo ficou muito tempo no meu nariz. Dona Glória infelizmente morreu, faz pouco tempo. O moço novinho que se mudou pro sétimo andar tem o jeito do seu Berilo. Quando lembro que eu, sozinha, tenho que virar o moribundo pra limpar a sujeira… deixa pra lá, sabe. O que me deixa mais chateada é que agora eu só subo de escada, tô evitando elevador. Terceiro andar é tranquilo, se eu tivesse trabalhando no oitavo que seria impossível. Gente rica compra muita coisa de uma vez só e desperdiça, e não deixa eu levar pros menino. Mas quando eu passei na portaria uns dias atrás, senti ele me olhando, o moço que tá morando na dona Glória. Virou pro porteiro e perguntou alto, de propósito: “e essa, quem é?”. Fingi que não era comigo, só falta uma parcela do carnê pra eu me livrar dessa gente louca.
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E ESSA. 23.10.2020
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